Ameaças Cibernéticas

ransoware empresas tecnologia Asper
Ameaças Cibernéticas

Quando quem vende segurança também é alvo: o salto do ransomware contra empresas de tecnologia

Por décadas, provedores de software e infraestrutura foram vistos majoritariamente como pontes cibernéticas. Um caminho conveniente, e muitas vezes menos vigiado, para que atacantes chegassem ao seu verdadeiro objetivo: o cliente final. Contudo, essa dinâmica do crime digital mudou drasticamente. Empresas de tecnologia deixaram de ser apenas um vetor em ataques de cadeia de suprimentos (supply chain attacks) e passaram a ser o prêmio principal das gangues de extorsão. A lógica por trás dessa mudança de paradigma é puramente estratégica e matemática. Quando uma organização de SaaS (Software as a Service) ou um provedor de infraestrutura em nuvem sofre uma violação, o impacto não se restringe aos seus próprios servidores. O efeito cascata atinge centenas ou milhares de clientes simultaneamente, criando um cenário de extorsão de altíssima alavancagem para o cibercriminoso. Para uma empresa cujo principal ativo intangível é a confiança operacional e a percepção de segurança que vende ao mercado, o tempo de inatividade prolongado ou o vazamento de informações alheias pode ser fatal. Neste artigo, analisamos o que o relatório de agosto realmente mostra, por que o provedor de tecnologia se tornou um alvo de alta alavancagem para a extorsão e quais controles reduzem a janela de exposição nesse tipo de operação. O que os números de agosto de 2026 mostram O relatório da Cohesity registrou 1.212 vítimas de ransomware no mundo em agosto, o maior volume dos últimos doze meses e um aumento de 27% sobre as 955 ocorrências de julho. Para dimensionar o salto, o menor número da série foi o de setembro de 2025, com 598 casos: em onze meses, a atividade mais que dobrou. No recorte por setor, a manufatura liderou com 185 casos, alta de 21,7% sobre julho. Tecnologia veio logo atrás, com 161 casos e crescimento de 27,8%, o maior entre os dois primeiros colocados. A tabela resume os cinco setores mais atingidos: Um ponto de rigor metodológico: a classificação por setor é global. O levantamento divulgado não traz o detalhamento setorial para o Brasil. O que ele informa sobre o país é que o Brasil registrou 27 casos em agosto, o maior número de 2026, o terceiro mês consecutivo de alta (julho teve 26), e manteve a sexta posição mundial, atrás de Estados Unidos (415), Alemanha (71), Itália (51), Reino Unido (50) e Canadá (31). Segundo Gustavo Leite, vice-presidente da Cohesity para a América Latina, o dado reflete uma expansão da mira dos criminosos para além das potências ocidentais tradicionais. De trampolim a alvo final: o que muda no cálculo de risco Por anos, a conversa sobre risco em fornecedores de tecnologia seguiu o modelo clássico de ataque à cadeia de suprimentos: o provedor é a porta de entrada, o cliente final é o destino. O caso mais ilustrativo desse padrão ocorreu entre 8 e 18 de agosto de 2025. De acordo com o Google Threat Intelligence Group (GTIG), um grupo rastreado como UNC6395 usou tokens OAuth roubados de uma plataforma de automação de vendas para acessar instâncias de CRM de seus clientes. O GTIG informou conhecer mais de 700 organizações potencialmente afetadas. Segundo o próprio grupo de pesquisadores, um único token roubado deu acesso aos tokens de qualquer organização vinculada à plataforma, e os atacantes buscaram nos dados exportados chaves de acesso a nuvem, credenciais de data warehouse e senhas de VPN. Esse episódio foi uma campanha de roubo de dados, e não de ransomware, mas explicita a lógica que o dado de agosto de 2026 reforça. Quando o provedor de tecnologia é comprometido, o impacto não termina nele. E quando ele próprio é a vítima listada no site de extorsão do grupo, o atacante negocia com uma empresa que carrega, além do próprio prejuízo, a responsabilidade sobre os dados de terceiros. O custo dessa dinâmica já aparece nas estatísticas brasileiras. O relatório Cost of a Data Breach 2025, da IBM, conduzido pelo Ponemon Institute, apurou que o comprometimento de terceiros e da cadeia de suprimentos foi a causa inicial de 15% das violações no Brasil, com custo médio de R$8,98 milhões por incidente. A média nacional foi de R$7,19 milhões, e o phishing, vetor mais frequente (18% dos casos), custou R$7,18 milhões. Ou seja, incidentes que passam por um fornecedor custam cerca de 25% mais que a média do país. Por que o provedor de tecnologia é um alvo de alta alavancagem A extorsão funciona melhor quando o custo de dizer “não” é alto. Empresas de tecnologia reúnem três fatores que elevam esse custo. Concentração de dados e de acessos privilegiados Um provedor de SaaS, de software ou de infraestrutura mantém em seus ambientes bases de clientes, repositórios de código, segredos de integração e acessos administrativos a ambientes de terceiros. Uma única credencial privilegiada comprometida pode abrir caminho para muito mais do que os dados da própria empresa. O mesmo vale para chaves de API e tokens de integração, que, como mostrou o caso de 2025, têm valor equivalente ao de uma senha de administrador. Esse risco de integrações expostas é detalhado em nosso artigo sobre segurança de APIs no Open Finance. A reputação de “segura” é parte do produto Para uma empresa que vende software corporativo, a confiança do cliente é um ativo comercial tão relevante quanto a funcionalidade. Um incidente com exposição de dados de clientes afeta renovações e contratos em negociação, e costuma ser seguido de auditorias conduzidas pela própria base. O grupo de ransomware sabe disso e precifica a extorsão com base nesse efeito. O efeito cascata em ambientes multi-tenant Em arquiteturas multi-tenant, em que múltiplos clientes compartilham a mesma infraestrutura lógica, falhas de isolamento, credenciais de serviço comprometidas ou acessos administrativos indevidos podem alcançar vários tenants em uma só operação. Há ainda a dimensão regulatória: pela LGPD, o controlador deve comunicar à ANPD incidentes que possam acarretar risco relevante aos titulares, e o provedor, na posição de operador, costuma ser o ponto de partida dessa notificação em cadeia. O que a defesa de uma empresa de tecnologia precisa cobrir Diante desse cenário, três

Computação Quântica Asper
Ameaças Cibernéticas

Computação quântica pode quebrar a criptografia a partir de 2035: por que a hora de agir é agora

Ninguém sabe dizer em que dia um computador quântico será capaz de quebrar a criptografia que hoje protege certificados digitais, VPNs e assinaturas eletrônicas. Ainda assim, reguladores e a própria indústria já trabalham com datas: 2030 para começar a abandonar os algoritmos vulneráveis e 2035 para encerrar o seu uso. A incerteza sobre o “quando” não elimina a certeza sobre o “quanto tempo a migração leva”, e é nessa diferença que mora o risco para quem toma decisões de segurança. Neste artigo, explicamos por que nem toda criptografia é afetada da mesma forma, como saber se sua organização já está atrasada, o que dizem os cronogramas oficiais e por que o gargalo real é a visibilidade. O alerta do Febraban Tech e por que ele vale para qualquer setor Durante o Febraban Tech, realizado em agosto de 2026, Enrique Vargas, diretor de desenvolvimento de negócios e parcerias para as Américas da IBM Quantum, afirmou que não é possível determinar quando os computadores quânticos serão capazes de quebrar os modelos atuais de criptografia. Segundo a cobertura do TI Rio, ele indicou que o alerta deve ser acionado a partir de 2030, com uma possível zona de risco por volta de 2035. O ponto central, porém, não é a data. É o que pode acontecer antes dela. De acordo com o NIST, dados criptografados hoje com algoritmos convencionais podem ser roubados e decifrados mais tarde, quando computadores quânticos estiverem disponíveis. A prática é conhecida no mercado como harvest now, decrypt later (coletar agora, decifrar depois): o atacante não precisa da máquina quântica hoje, apenas de armazenamento e paciência. Para informações com longa vida útil, como dados de saúde, contratos, propriedade intelectual e cadastros de clientes, o comprometimento pode começar a acontecer agora, ainda que a descriptografia só ocorra anos depois. Nem toda criptografia quebra igual A ameaça quântica não atinge todos os algoritmos com a mesma intensidade, e essa distinção evita tanto o pânico quanto a complacência. De um lado está a criptografia assimétrica, ou de chave pública: RSA, criptografia de curvas elípticas (ECC) e Diffie-Hellman. É a base do TLS que protege sites e APIs, das VPNs, dos certificados digitais e das assinaturas de software e de documentos. Essas construções dependem de problemas matemáticos, como a fatoração de números grandes, que o algoritmo de Shor resolve de forma eficiente em um computador quântico suficientemente poderoso. Não se trata de enfraquecer o algoritmo, mas de derrubá-lo por completo. Do outro lado está a criptografia simétrica e as funções de hash, como AES e SHA. Segundo o relatório NISTIR 8105, do próprio NIST, o algoritmo de Grover oferece apenas um ganho quadrático na busca por chaves e, se ele vier a ser praticamente relevante, dobrar o tamanho da chave é suficiente para preservar a segurança. Na prática, o AES-256 mantém margem confortável, e a migração para esse lado do problema é bem mais simples. Essa distinção importa porque a barreira para o ataque vem caindo. Um estudo publicado no arXiv em maio de 2025 estimou que uma chave RSA de 2048 bits poderia ser fatorada em menos de uma semana por um computador com menos de um milhão de qubits ruidosos, cerca de 20 vezes menos que a estimativa de 2019 do mesmo autor. É uma estimativa sob premissas específicas, e nenhuma máquina atual chega perto disso, mas mostra que o horizonte de risco depende também de avanços em algoritmos, não só em hardware. A conta que mostra por que sua empresa pode estar atrasada hoje Existe uma forma objetiva de transformar incerteza em prioridade, conhecida na comunidade de criptografia como desigualdade de Mosca, em referência ao pesquisador Michele Mosca. A lógica é direta: se o tempo durante o qual um dado precisa permanecer secreto, somado ao tempo que a organização levará para migrar seus algoritmos, for maior que o tempo até a existência de um computador quântico criptograficamente relevante, a empresa já está em atraso. Um exemplo ilustrativo, com números hipotéticos: imagine uma informação que precisa permanecer confidencial por 15 anos e uma migração que leve 7 anos entre inventário, testes, fornecedores e substituição de sistemas legados. A soma, 22 anos, ultrapassa 2035 com folga. O risco parece distante no calendário, mas a decisão que evita o problema precisa ser tomada agora. Como, em grandes organizações, a criptografia está distribuída por servidores, aplicações, certificados, APIs, equipamentos de rede e sistemas antigos, a transição é longa por natureza, conforme aponta o TI Rio. O calendário regulatório já está escrito A discussão saiu do campo teórico. Em agosto de 2024, o NIST publicou os três primeiros padrões de criptografia pós-quântica finalizados: FIPS 203 (ML-KEM), para troca de chaves, e FIPS 204 (ML-DSA) e FIPS 205 (SLH-DSA), para assinaturas digitais. Em novembro do mesmo ano, o instituto divulgou o rascunho do relatório NIST IR 8547, que propõe tornar obsoletos, após 2030, os algoritmos de chave pública vulneráveis com nível de segurança de 112 bits, como RSA-2048, e proibir todos eles após 2035. Vale registrar que o documento segue como proposta, mas já funciona como referência de planejamento. O Reino Unido foi mais explícito quanto a etapas. O NCSC, agência nacional de cibersegurança britânica, orienta que as organizações concluam a fase de descoberta e planejamento até 2028, executem as migrações de maior prioridade até 2031 e finalizem a transição de todos os sistemas até 2035. Na União Europeia, o roteiro coordenado pelo Grupo de Cooperação NIS, publicado em junho de 2025, prevê estratégias nacionais e inventários criptográficos iniciais até o fim de 2026, transição de casos de alto risco até 2030 e de casos de risco médio até 2035, conforme registrado por veículos especializados em computação quântica. Nos Estados Unidos, a CISA publicou em 2024 sua estratégia de inventário automatizado de criptografia, priorizando ativos com dados que seguirão sensíveis em 2035. No Brasil, o movimento também é concreto. Segundo o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), a Instrução Normativa ITI nº 35, de janeiro de 2026, incorporou algoritmos pós-quânticos, como ML-DSA e ML-KEM, aos

Ameaças Cibernéticas

O golpe que se disfarça de suporte de TI: como criminosos estão usando o Microsoft Teams para invadir empresas

Imagine a seguinte cena: um de seus colaboradores, operando em modelo híbrido ou remoto, recebe uma chamada de voz diretamente no Microsoft Teams corporativo. O identificador de chamadas na plataforma mostra um nome familiar, como “IT Help Desk” ou “Support Staff”. Do outro lado da linha, uma voz profissional, calma e prestativa informa que há um problema urgente com a sincronização do aplicativo autenticador (MFA) do usuário e que, para evitar o bloqueio iminente da conta corporativa, é necessário realizar um procedimento rápido. O funcionário, confiando na plataforma interna de comunicação da empresa, segue as instruções passo a passo. Em questão de minutos, o suposto analista de suporte guia a vítima até a instalação de uma ferramenta de acesso remoto ou solicita a aprovação de um prompt de redefinição de credenciais. O que parecia um atendimento ágil de TI era, na verdade, a porta de entrada para um ataque cibernético de alto impacto. Esse cenário não é hipotético. Trata-se de uma campanha global altamente sofisticada, batizada de Spring Ring, identificada recentemente pela Unit 42, equipe de inteligência contra ameaças da Palo Alto Networks. Segundo dados da Unit 42, entre janeiro e abril de 2026, essa operação atingiu mais de 150 funcionários em pelo menos dez grandes organizações globais, inaugurando uma nova e perigosa era de ataques de engenharia social em tempo real. O que é a operação Spring Ring e a evolução para o engajamento dinâmico A campanha Spring Ring se destaca por não explorar nenhuma vulnerabilidade técnica complexa ou falhas de “zero-day” no código do Microsoft Teams. Em vez disso, ela explora três vetores muito mais difíceis de serem corrigidos com um simples patch de software: a identidade, a confiança corporativa e o comportamento humano. De acordo com os relatórios da Palo Alto Networks, os criminosos utilizam contas externas do Teams (frequentemente, contas comprometidas de outras organizações ou locatários criados de forma maliciosa) para iniciar chamadas de voz diretamente com os alvos. Esse modus operandi representa uma evolução tática perigosa. O cibercrime está avançando de um modelo estático e passivo, no qual o atacante envia um link de phishing por e-mail e aguarda o clique, para um modelo de engajamento dinâmico. Neste novo formato, o criminoso conversa com a vítima, cria um senso de urgência operacional e atua como um guia, conduzindo o funcionário com instruções precisas. Como a abordagem ocorre dentro do ecossistema de comunicação da própria empresa, a guarda do usuário costuma estar baixa. Afinal, a ameaça não chega por um e-mail externo com remetente suspeito, mas sim através de uma chamada de voz em uma plataforma que o colaborador associa intrinsecamente à segurança e à rotina corporativa. O paradoxo do suporte técnico: quando a ajuda se torna a arma Para entender por que a campanha Spring Ring é tão letal, é preciso analisar um paradoxo central na segurança da informação: quanto mais um processo de suporte é desenhado para ser rápido e acolhedor, menor tende a ser a fricção de verificação de identidade nele embutida, e é exatamente essa fricção baixa que o golpe explora. Os processos de recuperação de contas, como o reset de senhas e a reconfiguração de MFA, existem com um propósito estritamente legítimo: ajudar usuários que perderam seus dispositivos ou esqueceram suas credenciais a retomarem o trabalho rapidamente. O suporte técnico tradicional é desenhado para ser prestativo, ágil e focado na continuidade da operação. O que os operadores da Spring Ring fazem, com maestria, é sequestrar exatamente essa capacidade operacional, transformando um processo de auxílio em um vetor direto de invasão. A lição estratégica por trás dessa tática é clara e exige atenção imediata dos CISOs: operações de alto impacto sobre a identidade precisam de um nível de verificação estritamente proporcional ao privilégio que concedem. Um processo desenhado apenas para ajudar o usuário de forma rápida, sem uma verificação robusta fora de banda (out-of-band verification), é um risco inaceitável. Quando a conveniência do suporte supera a validação rigorosa da identidade, a infraestrutura da empresa fica à mercê de engenharia social avançada. O impacto estratégico: do acesso inicial ao ransomware A operação Spring Ring não é um caso isolado, mas o mais recente e numeroso de uma tática que já vem sendo usada desde 2024, quando a própria Microsoft documentou o grupo Storm-1811, associado à distribuição do ransomware Black Basta, usando chamadas e mensagens no Teams para se passar por suporte técnico. Segundo o portal Minuto da Segurança, em publicações de setembro de 2026, esse padrão continua sendo explorado por diferentes grupos criminosos, o que reforça que abusar da confiança em plataformas de colaboração corporativa deixou de ser uma técnica pontual e passou a ser uma tendência consolidada de acesso inicial, inclusive como porta de entrada para ransomware. A cadeia de infecção a partir desse ponto é crítica. Uma vez que o falso suporte convence o usuário a instalar uma ferramenta comercial de acesso remoto, o criminoso ganha uma presença que o sistema reconhece como legítima na máquina. Com esse controle, o atacante passa a se movimentar lateralmente pela rede corporativa, escalando privilégios, exfiltrando dados sensíveis e preparando o terreno para a implantação de ransomware. O objetivo final é paralisar completamente as operações da empresa e exigir resgates milionários. É fundamental compreender que ferramentas tradicionais de segurança, focadas puramente na defesa de perímetro ou na análise estática de e-mails, tornam-se ineficazes nesse cenário. O tráfego de voz do Microsoft Teams é lido como tráfego legítimo, as ferramentas de acesso instaladas possuem assinaturas digitais válidas e as ações foram realizadas voluntariamente pelo usuário logado. Blindagem proativa: a resposta da Asper Diante de ameaças avançadas que abusam de funcionalidades legítimas e da confiança humana, a postura de defesa de uma organização não pode ser reativa. Na Asper, partimos do princípio fundamental de que hackers evoluem todos os dias e, consequentemente, a sua defesa também precisa evoluir de forma contínua. A proteção contra campanhas elaboradas como a Spring Ring exige a adoção de uma estratégia de Segurança em Camadas, que combine governança de identidade restritiva

Ameaças Cibernéticas

Convergência TI/OT: por que a indústria brasileira virou o alvo nº1 do ransomware na América do Sul

Enquanto o mercado discute inteligência artificial e nuvem, o ataque que mais preocupa o CISO industrial brasileiro ainda começa da forma mais simples: um e-mail corporativo. Foi assim que, segundo o relatório Manufacturing Threat Landscape 2026 da Check Point Research, o Brasil liderou isoladamente os incidentes cibernéticos industriais da América do Sul entre janeiro e março de 2025, com 22 casos concentrados no setor de alimentos e bebidas, segmento que não pode parar a produção e por isso virou alvo preferencial do crime organizado. O dado isolado já chamaria atenção. Mas é parte de um quadro maior: entre 2024 e 2025, o Brasil registrou 166 ataques de ransomware direcionados à indústria, dentro de um universo de 248 incidentes documentados em toda a América do Sul. A manufatura respondeu por 20,56% de todos os ataques cibernéticos do país no período, o maior percentual entre todos os setores da economia nacional, à frente de segmentos historicamente mais visados, como o financeiro. Por trás desses números está uma mudança estrutural na forma como a indústria brasileira opera. E ela tem nome: convergência entre Tecnologia da Informação (TI) e Tecnologia Operacional (OT). O isolamento que deixou de existir Por muito tempo, proteger uma planta industrial significava, sobretudo, mantê-la isolada. PLCs e sistemas SCADA, responsáveis por comandar válvulas, motores e supervisionar processos em tempo real, funcionavam em redes fechadas, sem qualquer ponte com a internet ou com os sistemas corporativos. Esse isolamento, conhecido como air-gap, fazia o trabalho pesado da segurança: sem conexão, não havia caminho para o invasor explorar. A Indústria 4.0 rompeu esse modelo por definição, não por acidente. Integrar sistemas ERP, plataformas de execução de manufatura (MES) e equipamentos de chão de fábrica deixou de ser diferencial competitivo para se tornar pré-requisito de eficiência, rastreabilidade e tomada de decisão em tempo real. O problema é que essa integração avançou muito mais rápido do que a capacidade das organizações de proteger o novo perímetro que ela criou. A Dragos confirma essa virada em seu relatório 9th Annual Year in Review, publicado em fevereiro de 2026: pela primeira vez, o comportamento predominante deixou de ser apenas mapear redes industriais e passou a incluir tentativas concretas de gerar impacto operacional dentro delas. O valor de uma credencial industrial no mercado clandestino Um dos indicadores mais reveladores desse amadurecimento criminoso é econômico. Segundo o mesmo relatório da Check Point Research, credenciais de acesso a empresas industriais brasileiras já são comercializadas em mercados clandestinos por valores entre US$4.000 e US$70.000. O intervalo não é aleatório: reflete o cálculo prévio do comprador sobre o potencial de dano  e, consequentemente, de extorsão  que aquele acesso representa. A tabela abaixo resume os principais indicadores do cenário brasileiro: Indicador Valor Fonte Ataques de ransomware à indústria no Brasil (2024–2025) 166 Check Point Research, Manufacturing Threat Landscape 2026 Incidentes documentados na América do Sul (2024–2025) 248 Check Point Research Participação da manufatura nos ataques no Brasil 20,56% Check Point Research Incidentes no 1º trimestre de 2025 (liderança sul-americana) 22 Check Point Research Valor de credenciais industriais no mercado clandestino US$ 4 mil a US$ 70 mil Check Point Research Advisories de vulnerabilidades ICS sem patch disponível (2025) 26% Dragos, 9th Annual Year in Review Fabricantes europeus com vulnerabilidades OT conhecidas ativas 80% Check Point Research Tempo médio de contenção com visibilidade OT vs. sem visibilidade 5 dias vs. 42 dias Dragos Da caixa de entrada à linha de produção: como o ataque se move A confusão entre incidente de TI e incidente operacional é um dos pontos mais críticos do problema. Robert Lee, CEO da Dragos, resumiu o equívoco: organizações industriais tendem a subestimar o alcance do ransomware em ambientes OT porque presumem que o problema “é só TI”. Um servidor Windows comprometido que hospeda um software SCADA não é um incidente de escritório, mas um incidente capaz de parar uma planta inteira. O caminho típico segue um padrão. Começa em um vetor familiar: uma credencial corporativa comprometida ou um acesso remoto via VPN mal configurado. Dali, o invasor se move lateralmente, técnica pela qual navega de um sistema comprometido para outros dentro da mesma rede, até alcançar o Active Directory, depois o ERP ou o MES e, na ausência de segmentação efetiva entre os ambientes corporativo e industrial, a própria camada OT, sem encontrar barreira relevante pelo caminho. O dado da Dragos confirma que esse trajeto já é rotina, não exceção: em 2025, malware e ransomware corresponderam, cada um, a 23% dos engajamentos de resposta a incidentes da empresa em ambientes industriais, um indicativo de que essas ameaças já operam dentro das redes OT, e não apenas em suas bordas. O caso da JBS Foods, ocorrido em 2021, ilustra o potencial de dano quando esse trajeto é bem-sucedido: o ataque do grupo REvil interrompeu operações da companhia na América do Norte e na Austrália e resultou no pagamento de US$ 11 milhões em resgate,  impacto que se propagou para fornecedores e distribuidores conectados à cadeia produtiva atingida. Equipamentos que não foram feitos para este momento O problema técnico central não está apenas na sofisticação de quem ataca, mas na fragilidade estrutural dos sistemas do outro lado. PLCs, interfaces homem-máquina (HMIs) e plataformas SCADA legadas foram projetados para durabilidade operacional ao longo de décadas,  não para resistir a ameaças cibernéticas modernas. Muitos rodam sistemas sem suporte, utilizam protocolos industriais sem autenticação nativa e não possuem ciclo de atualização de segurança. Os números tornam esse cenário concreto: em 2025, 26% dos advisories de vulnerabilidades publicados para sistemas de controle industrial (ICS) não vieram acompanhados de patch ou mitigação disponível pelo fabricante, segundo a Dragos. Na Europa, referência global de maturidade industrial, 80% dos fabricantes ainda operavam ambientes OT críticos com vulnerabilidades conhecidas e não corrigidas, de acordo com a Check Point Research. Em escala global, o mesmo levantamento da Dragos estima que US$329,5 bilhões estão sob risco de perda em cenários de incidentes OT de alta severidade e boa parte desse valor está concentrada em ativos que nenhuma equipe de TI tradicional

Ameaças Cibernéticas

128 milhões de consentimentos, uma única falha: o risco invisível por trás do Open Finance Brasileiro

O Brasil construiu, em poucos anos, o ecossistema de finanças abertas mais avançado do mundo. Segundo o relatório Estado do Open Finance – Brasil & Mundo, divulgado pela Sensedia em parceria com a Let’s Money em janeiro de 2026, o país alcançou a marca de 128 milhões de consentimentos ativos, colocando-se à frente de outras 78 nações com regulação do setor. Essa infraestrutura movimenta mais de 4,4 bilhões de comunicações semanais entre instituições financeiras, fintechs e iniciadores de pagamento. Esse volume é a prova de que o modelo funciona. Mas também é a medida exata de algo que costuma passar despercebido nas discussões sobre inovação: cada consentimento representa uma chamada de API, e cada API é, em potencial, um ponto de entrada. O Open Finance e o Pix não apenas aceleraram a experiência do usuário financeiro brasileiro, eles redesenharam, silenciosamente, o que significa proteger uma instituição. Essa superfície de exposição é composta por APIs REST protegidas principalmente por OAuth 2.0, OpenID Connect (OIDC) e pelo Financial-grade API (FAPI), padrão adotado pelo Open Finance brasileiro. A segurança desse ecossistema depende não apenas da criptografia ou da autenticação, mas da proteção contínua do ciclo de vida das APIs e de seus mecanismos de autorização. De um perímetro controlado para um ecossistema de confiança distribuída Até pouco tempo, a segurança de uma instituição financeira podia ser descrita, de forma simplificada, como o controle de um perímetro: a instituição definia o fluxo de onboarding, geria as sessões de seus próprios usuários e concentrava a lógica de decisão dentro de sistemas que ela mesma operava. Esse modelo permitia previsibilidade. O risco tinha endereço. O Open Finance rompeu essa lógica por definição, não por falha de implementação. Uma transação de crédito iniciada em uma fintech pode depender de dados hospedados por um banco tradicional, validados por um iniciador de pagamentos e confirmados por meio de um token trafegando entre múltiplas infraestruturas. O risco passou a acompanhar a transação, e não mais a instituição. Essa mudança estrutural é reconhecida pelo próprio setor: como aponta análise publicada pelo Jornal Empresas & Negócios, o aumento da quantidade de “portas e janelas abertas” fez com que instituições financeiras passassem a depender também da segurança de parceiros terceiros, já que o Open Finance funciona sobre uma malha de APIs que conecta bancos, fintechs e iniciadores de pagamentos. Esse modelo aproxima o setor financeiro da arquitetura Zero Trust, na qual nenhuma requisição é considerada confiável apenas por estar autenticada. Cada chamada deve ser validada continuamente considerando identidade, contexto, dispositivo, comportamento e nível de risco.  Cada nova integração aprovada é, ao mesmo tempo, um ganho de competitividade e um novo ponto de exposição. Essa dualidade é o centro do problema que a maioria dos programas de segurança ainda não resolveu. As APIs dobraram como superfície de ataque testada Os números que confirmam essa mudança de eixo já aparecem em dados de mercado. De acordo com o relatório Inside Pentesting 2026, produzido pela Vantico com base em centenas de projetos de teste de intrusão conduzidos em 2025, as APIs praticamente dobraram como proporção da superfície de ataque avaliada em pentests, saltando de 5,6% dos projetos em 2024 para 11,2% em 2025. No setor financeiro, onde o Open Finance e as integrações via Pix multiplicam o número de endpoints expostos, esse crescimento tende a ser ainda mais acentuado do que a média geral do mercado. Esse crescimento também acompanha o aumento de vulnerabilidades descritas pelo OWASP API Security Top 10, especialmente Broken Object Level Authorization , Broken Authentication, Excessive Data Exposure e Unrestricted Resource Consumption, que figuram entre as principais causas de comprometimento de APIs modernas.  O mesmo estudo aponta que falhas de autenticação (Authentication Failures) ocupam a segunda posição no ranking de vulnerabilidades mais identificadas, respondendo por 10,9% do total encontrado nos projetos analisados. Em um ambiente onde identidade equivale, na prática, a autorização, uma falha na camada de autenticação de uma API não é um detalhe técnico isolado: é a porta para movimentações fraudulentas em tempo real. Na prática, esses incidentes frequentemente envolvem reutilização indevida de tokens OAuth, replay de sessões, abuso de refresh tokens, interceptação do fluxo Authorization Code e falhas na validação de escopos (Scopes).  Há ainda um dado que expõe o custo da inação: em 27% dos casos analisados pela Vantico, vulnerabilidades classificadas como altas permanecem abertas por mais de 70 dias mesmo após a entrega do relatório de pentest. A causa mais comum não é falta de conhecimento técnico, é a dificuldade de integrar a correção ao ritmo operacional da instituição. Para um setor sob pressão regulatória constante, esse intervalo é tempo suficiente para que uma vulnerabilidade conhecida se transforme em incidente. Os vetores que exploram a velocidade do ecossistema A combinação de Open Finance e Pix criou um conjunto de ameaças que não se comporta como os ataques tradicionais de rede ou de endpoint. Elas exploram justamente a interoperabilidade que torna o sistema valioso. O phishing de consentimento é um exemplo direto: em vez de tentar comprometer um sistema, o atacante induz o próprio usuário a autorizar o compartilhamento de dados ou a aprovar uma iniciação de pagamento fraudulenta, explorando a familiaridade que o consumidor brasileiro já tem com telas de autorização do Open Finance. Também crescem tentativas de takeover de conta entre instituições diferentes, quando uma credencial comprometida em uma fintech é usada para tentar acesso a serviços de outra instituição dentro da mesma malha de integrações, e episódios de sequestro ou abuso de endpoints de API, em que falhas de limitação de requisições ou de validação contextual permitem ataques de força bruta, credential stuffing ou manipulação de sessão. O denominador comum entre esses vetores é a engenharia social amplificada pela velocidade. O Pix, sistema que movimentou R$ 35,4 trilhões em 2025, tornou-se também um vetor de manipulação: entre 80% e 90% das fraudes atuais que envolvem o sistema dependem de convencer a vítima a autorizar a própria transação, e não de invadir tecnicamente um sistema. Esse padrão se replica no Open Finance, onde a urgência

imagem representativa de de vazamentos em projetos de IA
Ameaças Cibernéticas

O preço da inovação sem governança: o que os 64% de vazamentos em projetos de I.A dizem sobre o perímetro digital

A inteligência artificial generativa deixou de ser uma decisão estratégica isolada dentro das empresas brasileiras. Ela já está integrada à rotina de praticamente toda organização, e isso aconteceu mais rápido do que qualquer estrutura de governança conseguiu acompanhar. Segundo o relatório Netskope Threat Labs Report: Brazil 2026, 100% das organizações analisadas no país já utilizam algum tipo de aplicação de I.A generativa, e o percentual de usuários que acessam ativamente essas ferramentas saltou de 50% para 71% em apenas doze meses. O problema não está na adoção em si, mas no que essa adoção carrega consigo sem que ninguém perceba. O mesmo levantamento aponta que 64% das violações de políticas de dados relacionadas ao uso de I.A generativa no Brasil envolvem informações reguladas ou sensíveis. Em aplicações pessoais utilizadas dentro do horário de trabalho, esse índice sobe para 66%. Não se trata de um incidente isolado nem de um cibercriminoso sofisticado explorando uma falha técnica. Trata-se de colaboradores comuns, em tarefas comuns, expondo código-fonte, contratos e dados de clientes para ferramentas que a empresa nem sempre sabe que estão em uso. Para CISOs, CTOs e DPOs, esse cenário cria uma tensão concreta: como sustentar a velocidade de inovação que o negócio exige sem perder o controle sobre onde os dados mais críticos da organização estão circulando. A adoção avançou mais rápido do que a governança O movimento de adoção de IA nas empresas brasileiras tem duas camadas. A primeira é visível e relativamente controlada: o uso de soluções de IA generativa administradas diretamente pelas organizações cresceu de 29% para 70% em um ano, segundo a Netskope. A segunda camada é a que preocupa as áreas de segurança e compliance. Mesmo com esse avanço na adoção gerenciada, mais da metade dos usuários continua recorrendo a contas ou aplicativos pessoais de IA durante o expediente, mantendo brechas relevantes de monitoramento. Há ainda um terceiro fator que amplia a superfície de risco: 96% dos usuários acessam aplicações de terceiros que incorporam recursos de I.A generativa de forma embutida, muitas vezes sem perceber que estão diante de uma ferramenta que processa e retém dados fora do ambiente corporativo. Plataformas amplamente usadas no dia a dia das equipes, como repositórios de código e serviços de armazenamento em nuvem, também passaram a ser exploradas como vetor de distribuição de ameaças, dificultando a distinção entre tráfego legítimo e atividade maliciosa. Esse cenário tem nome técnico: shadow AI, o uso de ferramentas de inteligência artificial fora dos canais homologados pela empresa. Um levantamento da Harmonic Security, divulgado em janeiro de 2026, detalhou o que efetivamente é inserido nos prompts dessas ferramentas: dados jurídicos e financeiros representam 30,8% dos casos, informações de clientes somam 27,8%, dados pessoais de titulares chegam a 14,9%, registros de funcionários representam 14,3% e código-fonte sensível corresponde a 10,1%. Desses dados, 79% fluem para um único grande modelo de IA generativa de mercado, sendo 21% para a versão gratuita, na qual os prompts podem ser retidos para treinamento futuro do modelo. Além do fenômeno conhecido como Shadow AI, as organizações também passam a lidar com uma nova superfície de ataque associada à inteligência artificial. APIs de modelos, agentes autônomos, integrações com aplicações corporativas, bases vetoriais e conectores externos ampliam significativamente a exposição digital das empresas. Técnicas como Prompt Injection, Data Poisoning e manipulação de modelos já figuram entre as principais preocupações de segurança associadas à adoção de IA generativa, exigindo que controles de segurança evoluam na mesma velocidade da inovação. O desafio torna-se ainda mais complexo à medida que agentes autônomos passam a executar tarefas em nome dos usuários. Diferentemente de ferramentas que apenas processam informações, esses sistemas podem interagir com e-mails, documentos, sistemas corporativos e fluxos de aprovação, ampliando os impactos potenciais de permissões excessivas ou configurações inadequadas. O custo de uma governança ausente A ausência de controle sobre esse fluxo de dados não é apenas um risco abstrato de compliance, ela tem preço definido. Segundo o relatório global de custo de violações de dados da IBM, publicado em 2025, incidentes em que o uso de shadow AI é um fator contribuinte custam, em média, US$ 670 mil acima da média global de um incidente de segurança, US$ 4,63 milhões contra US$ 3,96 milhões. No Brasil, o custo médio de uma violação de dados alcançou R$ 7,19 milhões em 2025, alta de 6,5% em relação ao ano anterior. O mesmo estudo da IBM revela um dado que deveria preocupar qualquer comitê de risco: 97% das organizações que sofreram violações envolvendo modelos ou aplicações de IA relataram ausência de controles de acesso adequados no momento do incidente. Em paralelo, 87% das empresas brasileiras ainda não possuem políticas formais de governança de IA. Ou seja, a maioria das organizações está operando com uma tecnologia de altíssimo poder de processamento de dados sensíveis sem o equivalente em controle de quem acessa o quê, quando e por meio de qual canal. Esse descompasso explica por que a abordagem mais comum entre gestores de TI, proibir o uso de ferramentas externas, tende a falhar. Pesquisas internacionais mostram que mesmo entre empresas que baniram completamente o uso de IA generativa, quase metade dos colaboradores admite ter inserido informações não públicas nessas ferramentas de qualquer forma. O risco não desaparece com a proibição; ele apenas se torna invisível para a equipe de segurança, o que é estatisticamente pior. Casos recentes demonstram que esse risco não é apenas teórico. Em um dos episódios mais conhecidos, colaboradores de uma grande empresa global de tecnologia compartilharam código-fonte proprietário com ferramentas de IA generativa durante atividades de desenvolvimento, resultando na exposição de informações estratégicas fora dos ambientes corporativos autorizados. Situações semelhantes vêm sendo observadas em diversos setores, reforçando que o principal vetor de risco não é necessariamente um atacante externo, mas o uso inadequado de ferramentas por usuários legítimos que buscam ganhos de produtividade. Os desafios associados à segurança de modelos de linguagem já são amplamente documentados pela comunidade técnica. Entre os principais riscos identificados pelo OWASP Top 10 for LLM Applications destacam-se: •

imagem representativa de falhas criticas abertas em ambientes aparentemente "seguros" de grandes empresas
Ameaças Cibernéticas

A vulnerabilidade do silêncio: por que 35% das falhas críticas permanecem abertas nas grandes empresas

Imagine que 35% das vulnerabilidades que sua equipe identificou no último mês ainda estão abertas e que, ao longo de todo esse período, grupos adversários tiveram acesso ativo a elas em quase todos os dias do calendário. Esse cenário hipotético descreve com precisão o que o Relatório de Investigações de Violações de Dados 2026 da Verizon (DBIR 2026) encontrou ao analisar mais de um bilhão de registros anônimos de vulnerabilidades: 35% das falhas presentes no catálogo de Vulnerabilidades Conhecidas e Exploradas Ativamente (KEV) da CISA ainda estavam abertas 28 dias após serem identificadas, totalizando 184 milhões de instâncias sem resolução efetiva. O que torna esse dado ainda mais relevante é o que ele revela sobre o esforço das equipes de segurança. Entre 2022 e 2024, os índices de remediação melhoraram de forma consistente. Em 2025, essa curva reverteu e a reversão aconteceu com as equipes trabalhando mais, corrigindo um volume maior de vulnerabilidades do que em qualquer ano anterior. O que mudou foi a escala do problema: o total de instâncias vulneráveis associadas ao catálogo KEV saltou de 295 milhões para 527 milhões em um único ciclo, crescimento de 78%. O DBIR descreve esse fenômeno como uma esteira que acelera constantemente, e a metáfora é precisa: as equipes correm mais rápido e ainda assim perdem terreno. O que os números do DBIR 2026 revelam sobre a crise de remediação Segundo o DBIR 2026, desenvolvido com dados fornecidos pela Qualys, apenas 26% das vulnerabilidades críticas listadas no catálogo KEV foram completamente corrigidas em 2025, queda expressiva em relação aos 38% do ano anterior. O tempo mediano para resolução completa também aumentou, de 32 para 43 dias. As organizações enfrentaram, em média, 50% mais vulnerabilidades críticas para corrigir do que no ciclo anterior. As equipes de segurança, vale registrar, não ficaram menos produtivas. Segundo a Qualys, parceira de pesquisa do relatório, foram corrigidas preventivamente 63,7 milhões de vulnerabilidades antes de sua inclusão no catálogo KEV, aumento de 30% em relação ao ano anterior. Ainda assim, a taxa de remediação proativa caiu de 16,6% para 12,1%. A razão está na diferença de escala: o esforço humano cresceu de forma linear enquanto a carga total composta de vulnerabilidades cresceu de forma exponencial. Nenhum investimento incremental em headcount resolve um desbalanço dessa natureza. O relatório do SC Media, publicado em maio de 2026, aprofunda esse ponto ao citar o Mondoo State of Vulnerability Remediation Report de 2025: 62% das equipes de segurança ainda utilizam métodos manuais de remediação, e apenas 2% operam com processos totalmente automatizados. Apenas 9% dos respondentes declararam confiança na capacidade de remediar vulnerabilidades relevantes dentro do prazo. Esses dados descrevem um modelo operacional que chegou ao teto de sua capacidade. Por que o modelo tradicional de gestão de vulnerabilidades perdeu eficácia Por mais de uma década, o pressuposto dominante na indústria foi de que vulnerabilidades críticas deveriam ser priorizadas por criticidade técnica, geralmente medida pelo CVSS, e remediadas em sequência o mais rapidamente possível. Essa abordagem funcionou enquanto o volume de exposições era compatível com processos manuais e janelas de manutenção periódicas. O que o DBIR 2026 demonstra com dados é que essa equação deixou de fechar. A análise de sobrevivência do relatório evidencia que quase metade das vulnerabilidades no catálogo KEV apresentou atividade de exploração detectável em 96% dos dias monitorados ao longo de 2025. Essas falhas foram ativamente utilizadas de forma contínua ao longo do tempo, e o intervalo entre a identificação de uma vulnerabilidade e sua exploração tem se estreitado de forma consistente. O resultado prático é perceptível em qualquer operação de segurança corporativa: filas intermináveis de alertas, priorização baseada em urgência percebida em vez de risco real para o negócio, e equipes em modo permanente de resposta a incidentes sem conseguir avançar na redução da exposição estrutural do ambiente. O DBIR 2026 confirmou ainda que a exploração de vulnerabilidades se tornou o principal vetor de acesso inicial em violações de dados, com crescimento de 31% em relação ao ano anterior. Esse crescimento reflete a convergência entre a expansão da superfície de ataque, o volume crescente do catálogo KEV e a pressão sobre os modelos tradicionais de remediação. Como grupos adversários selecionam seus alvos Grupos adversários avançados operam com lógica distinta da que orienta a maioria dos programas de gestão de vulnerabilidades. O processo de ataque parte do mapeamento da superfície de ataque de uma organização para identificar o caminho de menor resistência até um ativo de alto valor, seja uma credencial privilegiada, um sistema de pagamento, uma base de dados sensível ou um ponto de acesso a redes segmentadas. Dentro dessa lógica, uma vulnerabilidade de severidade moderada em um servidor exposto que serve de pivô para sistemas críticos é, na prática, mais valiosa para um atacante do que uma falha de pontuação CVSS alta em um sistema isolado. O que determina a prioridade real de exploração é a posição da vulnerabilidade no contexto da infraestrutura, e essa informação raramente aparece em uma lista ordenada por score. Para CISOs que gerenciam ambientes com múltiplas ferramentas, múltiplos fornecedores e equipes sob pressão constante, essa assimetria tem implicação direta: investir esforço de remediação com base exclusivamente em criticidade técnica pode resultar em proteção das camadas erradas do ambiente enquanto os caminhos reais de ataque permanecem abertos. Da gestão de vulnerabilidades ao gerenciamento de exposição O que o DBIR 2026 evidencia, e o que organizações com maturidade de segurança mais elevada já começaram a operacionalizar, é que a resposta à crise de remediação passa pela adoção de uma perspectiva diferente sobre o problema. A questão central deixa de ser quantas vulnerabilidades existem no ambiente e passa a ser quais exposições, se encadeadas, criam rotas viáveis para que um adversário avance até ativos críticos do negócio. Essa perspectiva define o Gerenciamento de Exposição Cibernética como categoria. No modelo tradicional de gestão de vulnerabilidades, cada CVE é tratado como um evento técnico isolado, a ser endereçado segundo sua criticidade individual. No modelo de exposição, o foco está no caminho de ataque: quais

imagem ilustrando ataque de ransoware e pagamento de resgate
Ameaças Cibernéticas

Quando pagar o resgate parece a saída mais rápida: o que os dados dizem sobre ransomware em 2026

Uma pesquisa conduzida pela Absolute Security com 750 líderes de segurança dos Estados Unidos e do Reino Unido revelou um dado que merece atenção estratégica: 58% dos CISOs entrevistados considerariam pagar um resgate em caso de ataque de ransomware. E ainda segundo levantamentos de  maio de 2026, o principal fator por trás dessa disposição não é falta de competência ou preparo técnico, mas sim o impacto imediato do tempo de inatividade operacional, e o descompasso entre a confiança declarada das empresas e sua capacidade real de recuperação. Esse dado, lido isoladamente, pode parecer apenas uma estatística. Contextualizado com o cenário atual de ameaças, ele revela algo mais profundo: para grande parte das organizações, o ransomware ainda representa uma ameaça capaz de paralisar operações de forma suficientemente severa a ponto de tornar a negociação com criminosos uma opção considerada pela alta liderança. E essa percepção, por si só, é o diagnóstico de uma lacuna de resiliência que precisa ser endereçada antes que o ataque aconteça. O ransomware moderno deixou de ser apenas um problema de indisponibilidade. Os principais grupos operam modelos de dupla e tripla extorsão, combinando criptografia de dados, exfiltração de informações sensíveis e pressão reputacional por meio da publicação dos dados em Data Leak Sites (DLS). Em alguns casos, os atacantes também realizam campanhas de contato direto com clientes, fornecedores e parceiros da vítima para aumentar a pressão pelo pagamento.  Um dos desafios atuais é o crescimento das técnicas Living Off The Land (LotL), nas quais os invasores utilizam ferramentas legítimas já presentes no ambiente, como PowerShell, PsExec, WMI e Remote Desktop Protocol (RDP), dificultando a detecção baseada exclusivamente em assinaturas.  Relatórios recentes mostram que credenciais roubadas, sessões sequestradas e ataques a identidades tornaram-se vetores mais frequentes do que a exploração direta de vulnerabilidades em muitos cenários de ransomware. O comprometimento de identidades passou a representar um dos principais fatores de risco para a propagação e escalonamento de privilégios.  O gap entre confiança declarada e capacidade real de resposta O relatório da Absolute Security expõe uma contradição que merece atenção. Cerca de 83% dos CISOs afirmaram estar confiantes na capacidade de recuperação de suas organizações. No entanto, entre as empresas que efetivamente sofreram ataques de ransomware, 57% levaram até uma semana para restaurar os sistemas, e 20% precisaram de até duas semanas. Nenhum dos entrevistados conseguiu restaurar operações em menos de 24 horas. Esse descompasso entre percepção e realidade é um dos pontos centrais que o relatório destaca. As organizações acreditam estar preparadas. A crise revela que os processos de recuperação são mais lentos e mais limitados do que o esperado. Outro fator que agrava essa equação é a dependência de processos físicos para recuperação. Segundo o mesmo levantamento, 59% das empresas precisam ter acesso físico aos dispositivos comprometidos para corrigi-los e restaurá-los após um ataque. Um processo que, na prática, atrasa significativamente a retomada das operações. Apenas 53% das organizações possuem capacidade de recuperação remota. Esse cenário se torna ainda mais crítico quando se considera o perfil dos endpoints vulneráveis. Segundo o relatório, 57% dos CISOs relataram ataques iniciados em dispositivos móveis, híbridos ou remotos nos últimos 12 a 18 meses, e 58% afirmaram que incidentes desse tipo deixaram equipamentos completamente inoperantes. Tempo de Detecção (MTTD) é tão importante quanto Tempo de Recuperação (MTTR) A velocidade de recuperação é apenas parte da equação. Organizações que conseguem reduzir o Mean Time To Detect (MTTD) e o Mean Time To Respond (MTTR) tendem a interromper o ataque ainda durante as fases de movimentação lateral e preparação da criptografia, reduzindo significativamente o impacto operacional.  O que os dados mostram sobre o comportamento real das organizações Enquanto o relatório da Absolute Security mede a disposição dos líderes de segurança para pagar, outros levantamentos documentam o comportamento efetivo das empresas após ataques. De acordo com o relatório “State of Ransomware 2025”, publicado pela Sophos e que abrangeu 110 empresas brasileiras, 66% das organizações vítimas de ransomware no Brasil optaram por pagar o resgate, percentual superior à média global de 50% registrada na mesma pesquisa. Esse índice manteve-se praticamente estável em relação ao ano anterior, indicando que o comportamento de pagamento permanece consistente independentemente de variações nos valores exigidos. O relatório da Sophos também revelou que, apesar do crescimento dos ataques, a criptografia de dados nas empresas atingiu seu menor nível em cinco anos: menos da metade dos ataques (49%) resultou em dados criptografados, e o percentual de ataques interrompidos antes da criptografia mais que dobrou em dois anos, passando de 22% em 2023 para 47% em 2025. Isso sugere que as empresas com posturas de segurança mais maduras estão, de fato, contendo ataques antes que causem danos graves, o que reforça o valor da detecção antecipada e da resposta ágil. No cenário brasileiro, os dados sobre a escalada das ameaças são igualmente expressivos. Segundo a SonicWall, os ataques de ransomware no Brasil aumentaram 25% no primeiro semestre de 2025, com mais de 3,6 mil incidentes registrados. E um estudo da Sophos indica que 73% das empresas brasileiras afirmaram ter sido vítimas desse tipo de ataque, evidenciando a dimensão do problema no ambiente corporativo nacional. Por que pagar o resgate não resolve o problema O entendimento de que o pagamento representa uma saída rápida é, em grande parte, uma ilusão operacional. Os dados disponíveis mostram que essa decisão carrega uma série de consequências que se estendem muito além do valor transferido. Segundo dados compilados pelo Portal Information Management em análise publicada em abril de 2026, o custo médio de recuperação no Brasil chega a US$ 1,19 milhão, valor que frequentemente supera o resgate inicial e prova que pagar não encerra a sangria financeira. A Veeam Software, por sua vez, publicou em abril de 2026 o Relatório de Resiliência e Confiança de Dados de 2026, com base em respostas de mais de 900 executivos de TI, segurança e risco: embora 90% dos líderes afirmem estar preparados para se recuperar rapidamente, apenas 28% conseguem restaurar totalmente os dados comprometidos após um ataque. Há ainda o

Ameaças Cibernéticas

3.736 ataques por semana: por que o setor financeiro brasileiro nunca foi tão visado pelo cibercrime

O setor financeiro não é apenas mais um alvo do cibercrime organizado, ele é o principal, e os dados de 2026 deixam isso inequívoco. Segundo levantamento da Check Point Research divulgado em fevereiro de 2026, organizações brasileiras sofreram em média 3.736 ataques cibernéticos por semana, crescimento de 37% em relação ao mesmo período do ano anterior. O número ganha outro peso quando lido junto ao Relatório Global de Gerenciamento de Exposição do Setor Financeiro, publicado pela mesma Check Point: os ataques direcionados a esse setor saltaram de 864 ocorrências em 2024 para 1.858 em 2025, crescimento de 115% em apenas um ano. Esses números são a materialização de uma realidade que CISOs, CTOs e líderes de tecnologia do setor financeiro enfrentam diariamente: ambientes sob pressão constante, superfícies de ataque em expansão e grupos criminosos cada vez mais profissionalizados. Além de ataques oportunistas, o setor financeiro brasileiro enfrenta operações conduzidas por grupos especializados em fraude bancária, infostealers, ransomware e ataques à cadeia de suprimentos. Organizações criminosas exploram credenciais vazadas, malware bancário, engenharia social e comprometimento de fornecedores para obter acesso inicial e monetizar rapidamente os ambientes comprometidos. Principais grupos e ameaças que atuam contra o setor financeiro brasileiro PLUMP SPIDER (Brasil) Grupo especializado em fraudes financeiras, comprometimento de contas corporativas e ataques direcionados a instituições financeiras e fintechs. É conhecido por explorar engenharia social, comprometimento de credenciais e abuso de acessos legítimos. Grandoreiro Trojan bancário de origem brasileira que integra o ecossistema conhecido como “Tetrade”. Atua por meio de campanhas de phishing, malware bancário e captura de credenciais, afetando bancos em diversos países da América Latina e Europa. Guildma Malware bancário brasileiro focado em roubo de credenciais, autenticações multifator e informações financeiras. Utiliza campanhas massivas de e-mail malicioso e técnicas avançadas de evasão. Mekotio Trojan bancário amplamente distribuído na América Latina. Tem histórico de ataques contra clientes de instituições financeiras, capturando credenciais bancárias e realizando fraudes eletrônicas. Casbaneiro (Metamorfo) Malware bancário brasileiro que monitora atividades financeiras das vítimas e executa ações fraudulentas em sessões bancárias comprometidas. Blind Eagle (APT-C-36) Grupo latino-americano conhecido por campanhas de espionagem e roubo de informações. Embora seu foco principal não seja exclusivamente financeiro, frequentemente utiliza campanhas de phishing que atingem instituições financeiras e seus clientes. Lumma Stealer e RedLine Stealer Famílias de infostealers amplamente comercializadas em fóruns clandestinos. São responsáveis por grande parte das credenciais corporativas e bancárias encontradas em mercados da dark web, representando uma ameaça significativa para bancos e fintechs. LockBit, Akira, Play, Qilin e Medusa Grupos de ransomware que frequentemente atacam organizações financeiras, seguradoras e processadoras de pagamento. Além da criptografia dos dados, utilizam extorsão baseada em vazamento de informações sensíveis. Um dos casos mais emblemáticos dos últimos anos foi a fraude milionária que afetou uma instituição financeira brasileira por meio do comprometimento de um fornecedor integrado ao sistema financeiro. O incidente resultou no desvio de centenas de milhões de reais e demonstrou como vulnerabilidades na cadeia de suprimentos podem impactar diretamente operações financeiras críticas, mesmo quando os controles internos da instituição permanecem íntegros. Por que o setor financeiro concentra os incidentes de maior impacto A resposta é direta: liquidez imediata, dados altamente sensíveis e infraestrutura crítica amplamente conectada. Nenhum outro segmento reúne esses três atributos com a mesma intensidade. Segundo análise publicada pelo portal IPNews em maio de 2026, o setor financeiro liderou os ataques cibernéticos no Brasil pelo segundo ano consecutivo, concentrando mais de 20% de todos os incidentes registrados no país em 2025. Em 2024, essa participação já era de 19,76%. Não se trata de variação pontual, mas de uma tendência estrutural que se aprofunda a cada ciclo. O que torna essa concentração ainda mais crítica é a combinação de três fatores. O primeiro é a monetização direta: diferente de outros setores, onde o criminoso precisa percorrer etapas intermediárias para converter dados roubados em ganho financeiro, uma invasão bem-sucedida a uma instituição financeira pode resultar em transferências fraudulentas em tempo real. O segundo é a pressão regulatória: as exigências do Banco Central do Brasil (BACEN) e da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) ampliam a exposição legal das instituições, tornando qualquer incidente em um evento com repercussão que vai além do técnico. O terceiro é a complexidade da infraestrutura: bancos, fintechs, seguradoras e processadoras de pagamento operam com ambientes híbridos, APIs em escala crescente e múltiplos fornecedores conectados, cada um representando um vetor potencial de entrada. Segundo a Vantico, no relatório Inside Pentesting 2026, as APIs dobraram como superfície de ataque entre 2024 e 2025, subindo de 5,6% para 11,2% dos projetos analisados. No setor financeiro, onde o Open Finance e as integrações via Pix multiplicam as APIs expostas, esse crescimento é ainda mais pronunciado. Os vetores que grupos criminosos mais exploram no setor financeiro 1- Credenciais comprometidas e abuso de identidade O roubo e o uso de credenciais válidas seguem como a principal porta de entrada para atacantes. Quando um colaborador de uma instituição financeira ou de um fornecedor terceirizado tem suas credenciais comprometidas, o atacante ganha acesso a sistemas internos sem precisar explorar nenhuma vulnerabilidade técnica, uma rota silenciosa e eficaz. Os números evidenciam a escala do problema: segundo dados da Avant Services com base em análises da Check Point Research, 98% das contas em nuvem de empresas brasileiras operam sem autenticação multifator (MFA) e 91% com privilégios excessivos. Em ambientes financeiros onde uma única credencial privilegiada pode dar acesso a sistemas de pagamento ou bases de dados de clientes, essa lacuna representa risco imediato. O próprio Banco Central alertou que grupos criminosos demonstram conhecimento avançado sobre a operação do sistema financeiro nacional, chegando a cooptar colaboradores das próprias instituições ou de prestadores de serviço contratados por elas. Enquanto a fraude por identidade sintética representa 11% dos casos globalmente, na América Latina esse índice chega a 48,3%, segundo levantamento do CISO Advisor de 2026. 2- Engenharia social associada ao Pix A adoção massiva do Pix criou uma nova camada de exposição. O sistema de pagamentos instantâneos tornou-se também um vetor de engenharia social: criminosos exploram a

Ameaças Cibernéticas

Quando o seu assistente de IA vira um insider: os riscos que ninguém está medindo em 2026

Durante anos, o debate em torno da inteligência artificial corporativa girou em torno de uma única preocupação: o que acontece quando o modelo erra a resposta? A alucinação textual, aquela saída imprecisa que um LLM gera com aparente confiança, foi o risco central de toda uma geração de projetos de IA. Em 2026, esse problema ainda existe. Só que ele ficou secundário diante de algo substancialmente mais grave. Os agentes autônomos de IA não apenas respondem a perguntas. Eles executam tarefas, acessam sistemas, movimentam dados, disparam processos e tomam decisões, tudo isso sem que um ser humano aprove cada etapa. O risco deixou de ser uma resposta errada em um chat e passou a ser uma ação irreversível executada em velocidade de máquina dentro da infraestrutura da sua empresa. Esse é o cenário que CTOs e CISOs brasileiros enfrentam agora: uma pressão crescente para adotar IA com agilidade, enquanto os frameworks de governança e os controles de segurança ainda tratam esses agentes como se fossem usuários comuns, ou, pior, como se simplesmente não existissem. A nova categoria de risco que a maioria das empresas ignora Agentes autônomos operam com identidades próprias. Eles possuem credenciais, acessam APIs, consultam bases de dados, executam fluxos de negócio e até orquestram outros agentes. Cada um desses agentes representa o que a literatura técnica chama de Identidade Não Humana (NHI – Non-Human Identity). Segundo dados publicados pelo portal Ramos da Informática, as NHIs já superam as identidades humanas nas grandes organizações numa proporção estimada de 80 para 1. Apesar disso, a maioria das empresas ainda não tem governança formal sobre essas identidades. Não há inventário, não há ciclo de vida definido, não há política de revogação. O agente existe, age e acumula privilégios, muitas vezes sem que o time de segurança sequer saiba que ele está lá. A consequência direta disso é o que pesquisadores chamam de “alucinação de ação”: em vez de gerar um texto incorreto, o agente mal configurado ou comprometido executa uma transferência fraudulenta, escala privilégios ou vaza dados sensíveis, e faz tudo isso com a velocidade e a persistência que nenhum atacante humano conseguiria sustentar. Os três vetores de ataque que definem o novo perímetro 1. Prompt Injection: quando o conteúdo vira uma arma O prompt injection abuso de permissões, identidades não humanas e excesso de agência são riscos reais em LLMs/agentes. A OWASP lista prompt injection, excessive agency, supply chain e data poisoning entre os principais riscos para aplicações LLM/GenAI. O NIST AI 600-1 também reconhece prompt injection, data poisoning e vazamento de dados como riscos relevantes de GenAI,  hoje um dos vetores mais relevantes mais discutido contra agentes de IA. A lógica é elegante na sua perversidade: em vez de atacar o sistema diretamente, o adversário embute instruções maliciosas dentro de conteúdo aparentemente legítimo: um e-mail, um ticket de suporte, uma nota fiscal, um documento PDF processado pelo agente. Quando o agente consome esse conteúdo como parte do seu contexto operacional, ele interpreta as instruções plantadas como comandos válidos e começa a executá-las. Segundo análise publicada pelo Stellar Cyber, um dos riscos mais sérios nesse cenário é o goal hijacking: o agente tem sua lógica original substituída por um objetivo injetado pelo atacante, podendo executar transferências financeiras ou exfiltrar dados sem nenhuma intervenção humana. A diferença crítica em relação a um ataque convencional está na escala e na velocidade. Um agente comprometido pode processar centenas de solicitações maliciosas por hora, enquanto qualquer tentativa equivalente por parte de um humano seria detectada imediatamente pelo comportamento anômalo. 2. Envenenamento de memória: o ataque que dorme antes de agir Sistemas de IA corporativos modernos, especialmente os que utilizam arquiteturas RAG (Retrieval-Augmented Generation), mantêm uma base de conhecimento que o agente consulta antes de agir. Essa memória persistente é um alvo privilegiado. No envenenamento de memória, o atacante não precisa comprometer o agente em tempo real. Ele injeta informações falsas na base de conhecimento, uma política de pagamento fraudulenta, um número de conta alterado, uma regra de negócio corrompida, e aguarda. Semanas depois, quando o agente consulta essa memória para processar uma transação legítima, ele age com base nos dados envenenados. Conforme documentado pelo Stellar Cyber em análise sobre ameaças agentic, esse tipo de ataque cria um “agente adormecido”: o comprometimento ocorre em um momento, o dano se materializa em outro, e a cadeia de causalidade entre os dois eventos é praticamente impossível de rastrear com ferramentas de monitoramento convencionais. 3. Abuso de privilégios: o problema do excesso de permissões Agentes de IA são, por natureza, mal dimensionados em termos de acesso. Para funcionarem com eficiência, eles recebem permissões amplas, acesso a bases de dados, APIs financeiras, sistemas de CRM, repositórios de código. O problema é que esses privilégios raramente são revisados ou calibrados ao mínimo necessário. O resultado é o que a literatura de segurança chama de “blast radius” expandido: qualquer comprometimento do agente dá ao atacante acesso equivalente ao escopo total de permissões concedidas. Em sistemas com dezenas ou centenas de agentes, um único ponto de falha pode comprometer setores inteiros da operação. Segundo análise do Stellar Cyber, um caso real envolveu um agente de reconciliação financeira manipulado para exportar a totalidade de uma base de clientes, simplesmente porque a instrução foi formulada como uma tarefa de negócio legítima, e o agente tinha permissão suficiente para executá-la. Por que os controles atuais não foram feitos para isso Firewalls e antivírus tradicionais operam no nível de rede e assinatura. Um agente de IA que executa uma consulta SQL legítima com credenciais válidas é, para esses sistemas, indistinguível de um usuário humano fazendo a mesma coisa. A diferença está no comportamento semântico, no porquê da ação, não na ação em si. Da mesma forma, os modelos de governança de identidade foram construídos pensando em funcionários humanos com contratos, crachás e datas de desligamento. Um agente autônomo pode ser criado em minutos, operar por semanas e ser descartado sem deixar rastro, e nenhum processo convencional de IAM vai capturar esse ciclo de vida.